Não me atrevo a dizer adeus. Viver
mais de um ano em New York me ensinou que a vida não é de tais cerimônias.
Eu te passo a receita:
Passos largos e ligeiros,
Olhares sem muita expressão, daqueles
que dizem:
-"Excuse
me! Eu não pedi sua atenção!"
Sempre, sempre manter-se a direita
nas escadas (vida, talvez?), há grande possibilidade de alguém estar mais
apressado que você, a faixa da esquerda são deles. Aceitem, é melhor evitar um
empurrão.
Não! Eles não querem amigos, não
querem seu abraço, tampouco querem seus dois beijinhos na bochecha.
Com o tempo você vai aprender o
ritual do Sorry. O que é bem simples
na verdade. Se você passar perto de alguém (1 metro de distância por exemplo)
vocês trocaram seus Sorrys, tal como se
vocês tivessem avançado o espaço do outro. Mas rapidamente vocês seguiram seus caminhos,
pois muito provavelmente vocês estarão correndo para fazer algo, afinal, vocês
estão em New York.
Sinto dizer, mas New York não vem
com manual, ela é direto ao ponto. Acostume-se. Não é de se estranhar o fato de
este ser o ponto de encontro preferido da humanidade. Ela é uma injeção sem
anestesia e sem aquele aviso prévio do "Não vai doer" que anuncia a
dor iminente e nos permite preparar o músculo para receber a agulha.
Suas ruas e avenidas são uma mistura
intrigante de caos e harmonia. Quando você se vê, já se foi com o bonde. O
bonde vivo de New York, daí já era. Você perceberá que New York estará dentro
de você, correndo em tuas veias, e como tal, já não é possível dizer adeus. Acredito
que isto seja a única coisa que o consumidor não pode "Retornar" lá. Sério,
tentei pela Amazon, mas aparentemente The
Everything’s Store não me vendeu a tal “injeção” e não a querem de volta.
Estou no JFK, avião está trinta
minutos atrasado, aproveito para reparar as feições desse povo do terminal 8 gate 5, em sua maioria, brasileiros
voltando de uma jornada que não me é estranha. Não é difícil notar caras de
susto, alegria, tristeza. Algo que gosto de chamar de uma Nostalgia Premeditada, eu até que gosto disso, mas porquê de toda
essa nostalgia? Bem, me vem em mente, a poesia Apresentações de Mario Quintana que
diz:
“Das
novelas que tenho lido, eu geralmente achei que deviam ter começado vinte
páginas depois e terminar vinte páginas antes. O resto não passa de
apresentações e despedidas. A vida não é de tais cerimonias: seus enredos
começam no meio do baile. ”
Não
aceitamos a despedida, é nostálgico porque foi bom, e por mais que o visto nos
diga que acabou, o baile continua a escorrer em nossas veias. Por isso, eu
mesmo tão atrevido, não hei de me atrever a dizer adeus a ti New York.
Com carinho, uma de tuas almas
convulsionadas.
Hilton Wesley Lacerda.
Hilton Wesley
terça-feira, 29 de dezembro de 2015