“O amor que tenho guardado no peito, me faz ser alegre, sofrido e
carente/ Ah! Como eu amei!/ Sou sonho, sou verso, sou terra, sou sol/
sentimento aberto” (Benito Di Paula).
Fale-me como tem sido a sua vida.
Conte-me novamente os teus segredos, chore novamente em meu ombro, despeje suas
mágoas, conforta-se. Fala-me dos caminhos que escolhestes seguir, de suas
vitórias e de suas derrotas. Deixa que eu seja novamente o teu amigo, o teu
próximo, o teu irmão, teu amante em secreto.
Como um prisioneiro do passado
vivo no presente. A cada fechar dos olhos a recordação de algo que nunca
aconteceu invade meu íntimo. Lembro-me do primeiro olhar adolescente naquele
ônibus, do primeiro sorriso tímido, do encontro frustrado naquela praça
tenebrosa, da rosa em seu livro, do tocar de mãos trêmulas, do silêncio
desmotivador, da indiferença, da distância...
Continuo a viver a teu dispor.
Conheço os seus medos, segredos e sonhos. Talvez como nenhum outro os conheça.
Nunca compreendi porque tanta dedicação a ti. Hoje ouvi o poeta indagar: “Será que você seria capaz de se esquecer de mim, e, assim
mesmo, depois e depois, sem saber, sem querer, continuar gostando? Como é que a
gente sabe?*” Respondi rapidamente, não consigo esquecer-te e continuo sem querer a
gostar de ti. Triste sina essa minha.
Ah, ano passado nos encontramos, não foi? Não
percebeste, mas enquanto eu olhava para ti, as minhas pernas tremiam debaixo da
mesa, como se fosse o primeiro e último encontro contigo.
*O poeta que fez essa indagação foi Guimarães Rosa.
Régis Pereira
domingo, 24 de novembro de 2013